" Eu me descubro ainda mais feliz a cada pedaço seu e de tudo o que é seu. Eu amo tanto o seu banheiro com as combinações em verde e a chuva fina do chuveiro, que chorei essa manhã enquanto você tomava taffman-e e ouvia música eletrônica.
Às vezes você é tão bobo, e me faz sentir tão boba, que eu tenho pena de como o mundo era bobo antes da gente se conhecer. Eu queria assinar um contrato com Deus:
se eu nunca mais olhar para homem nenhum no mundo, será que ele deixa você ficar comigo pra sempre?Eu descobri que tentar não ser ingênua é a nossa maior ingenuidade, eu descobri que ser inteira não me dá medo porque ser inteira já é ser muito corajosa, eu descobri que vale a pena ficar três horas te olhando sentada num sofá mesmo que o dia esteja explodindo lá fora. E quando já não sei mais o que sentir por você, eu respiro fundo perto da sua nuca, e começo a querer coisas que eu nem sabia que existiam.
Quando a gente foi ver o pôr-do-sol na Praça pôr-do-sol, eu, você e a Lolita, a minha cachorrinha mala, e a gente ficou abraçado, e a gente se achou brega demais, e a gente morreu de rir, eu senti um daqueles segundos de eternidade que tanto assustam o nosso coração acostumado com a fugacidade segura dos sentimentos superficiais. Eu olhei para você com aquela sua jaqueta que te deixa com tanta cara de homem e me senti tão mulher ao lado de um homem, que eu tive vontade de ser a melhor mulher do mundo. E eu tive vontade de fazer ginástica, ler, ouvir todas as músicas legais do mundo, aprender a cozinhar, arrumar seu quarto, escrever um livro, ser mãe. E aí eu só olhei pra bem longe, muito além daquele Sol, e todo o meu passado se pôs junto com ele. E eu senti a alma clarear enquanto o dia escurecia.
Eu te engoli e você é tão grande pra mim que eu dedico cada segundo do meu dia em te digerir. E eu não tenho mais fome, e eu tenho que ter fome porque eu não quero você namorando uma magrela. E eu sonhei com você e acordei com você, e eu te olhei e falei que eu estava muito magrela, e você me mandou dormir mais, e me abraçou.
Eu preciso disfarçar que não paro mais de rir, mas aí olho pra você e você também está sempre rindo. Se isso não for o motivo para a gente nascer, já não entendo mais nada desse mundo. E eu tento, ainda refém de algumas células rodriguianas que vez ou outra me invadem, tentar achar defeito na gente, tentar estragar tudo com alguma sujeira. Mas você me deu preguiça da velha tática de fuga, você me fez dormir um cd inteiro na rede e quando eu acordei o mundo inteiro estava azul.
Engraçado como eu não sei dizer o que eu quero fazer porque nada me parece mais divertido do que simplesmente estar fazendo. Ainda que a gente não esteja fazendo nada.
Eu, que sempre quis desfilar com a minha alegria para provar ao mundo que eu era feliz, só quero me esconder de tudo ao seu lado.Eu limpei minhas mensagens, eu deletei meus emails, eu matei meus recados, eu estrangulei minhas esperas, eu arregacei as minhas mangas e deixei morrer quem estava embaixo delas. Eu risquei de vez as opções do meu caderninho, eu espremi a água escura do meu coração e ele se inchou de ar limpo, como uma esponja. Uma esponja rosa porque você me transformou numa menina cor-de-rosa. Você me transformou no eufemismo de mim mesma, me fez sentir a menina com uma flor daquele poema, suavizou meu soco, amoleceu minha marcha e transformou minha dureza em dança. Você quebrou minhas pernas, me fez comprar um vestido cheio de rendas e babados, tirou as pedras da minha mão.
Você diz que me quer com todas as minhas vírgulas, eu te quero como meu ponto final. "
- Tati Bernardi
" Achei que aquela dor fosse durar para sempre, de tanto que doía. Não era dor física, daquelas que a gente põe a mão pra amenizar, era dor de amor. Não tive a sorte de um amor tranqüilo. Sentia o coração sendo rasgado, em finos trapos, bem devagarinho. Doendo ... Rasgando ... Ferindo ... Sangrando ... E a cabeça só lembrava:
você.O chão que me faltou aos pés era o buraco em que eu queria me enterrar. Mas queria viver! Viver pra te ensurdecer de tanto gritar: ' Eu te amo ', explodir meus pulmões de tanto chorar, me matar pra ver se te matava, te matar pra ver se renascia. Eu sorria quando tu sorrias, eu chorava quando tu choravas. No fundo, só queria te fazer sentir aquilo que eu sentia, te sobreviver do meu amor.Quantas vezes quis abrir teu peito, te arrancar o coração e colocar o meu no lugar:
' Toma! Experimenta me amar como eu te amo. Toma! '. Quantas vezes quis rasgar meu peito, te tirar lá de dentro e dizer:
' Vai! Segue teu caminho e esquece que eu existo, já não te preciso mais. Me venci. Te matei em mim. ' Tudo ilusão. Um amor desse tamanho não se mata assim.
Sonhei tantas vezes com o momento de te deixar que cheguei a te odiar. Te amava e te odiava, te odiava mas te amava. E te sufocava com meu desejo. E me viciava. E me afogava. E me afundava. Eu estava doente de você!
Passa, isso passa com o tempo, você dizia. Hoje tenho que dizer que tens razão. Ainda te amo, mas calmo, suave. Ainda te amo, mas me permito amar outras pessoas. Ainda te amo, mas me permito viver sem você. Ainda te amo, mas existo pra mim. Mas ainda te amo. "
- Denise Krammer (:
" Combinamos que não era amor. Escapou ali um abraço no meio do escuro. Mas aquilo ali foi sono, não sei o que foi aquilo. Foi a inércia do amor que está no ar mas não necessariamente dentro de nós. A gente foi ao cinema, coisa que namorados fazem. Mas amigos fazem também, não? Somos amigos. Escapou ali um beijo na orelha e uma mão que quis esquentar a outra. Mas a gente correu pra fazer piadinha sexual disso, como sempre.
Aí teve aquela cena também, de quando eu fui te dar tchau só com a manta branca e o cabelo todo bagunçado. E você olhou do elevador e me perguntou: ' Não to esquecendo nada? ' E eu quis gritar: ' Tá, tá esquecendo de mim! ' E você depois perguntou: ' Não tem nada meu aí? ' E eu quis gritar: ' Tem, tem eu! - Eu sempre fui sua. Eu já era sua antes mesmo de saber que você um dia não ia me querer.Mas a gente combinou que não era amor.
Você abriu minha água com gás predileta e meu sabonete de manteiga de cacau. E fuçou todas as minhas gavetas enquanto eu tomava banho. E cheirou meu travesseiro pra saber se ainda tinha seu cheiro. Ou pra tentar lembrar meu cheiro e ver se ele ainda te deixa sem vontade de ir embora. Mas ainda assim, não somos íntimos. Nada disso. Só estamos aqui, reunidos nesse momento, porque temos duas coisas muito simples em comum: nada melhor pra fazer e vontade de fazer sexo. Só isso. É o que está no contrato. E eu assino embaixo. Melhor assim. Muito melhor assim. Tô super bem com tudo isso. Nossa, nunca estive melhor.
Mas não faz isso. Não me olha assim e diz que vai refazer o contrato. Não faz o mundo inteiro brilhar mais porque você é bobo. Não faz o mundo inteiro ficar pequeno só porque o seu chapéu é muito legal. Não deixa eu assim, deslizando pelas paredes do chuveiro de tanto rir porque seu cabelo fica ridículo molhado. Não faz a piada do vampiro só porque você achou que eu estava em dias estranhos.
Não transforma assim o mundo em um lugar mais fácil e melhor de se viver. Não faz eu ser assim tão absurdamente feliz só porque eu tenho certeza absoluta que nenhum segundo ao seu lado é por acaso.Combinamos que não era amor e realmente não é. Mas esse algo que é, é realmente muito libertador. Porque quando você está aqui, ou até mesmo na sua ausência, o resto todo vira uma grande comédia. E aquele cara mais novo, e aquele outro mais velho, e aquele outro que escreve, e aquele outro que faz filme, e aquele outro divertido, e aquele outro da festa, e aquele outro amigo daquele outro. E todos aqueles outros viram formiguinhas de nariz vermelho. E eu tenho vontade de ligar pra todos eles e falar: ' Puatz cara, e você acha mesmo que eu gostei de você? Coitado. ' Adoro como o mundo fica coitado, fica quase, fica de mentira, quando não é você. Porque esses coitados todos só serviram pra me lembrar o quão sagrado é não querer tomar banho depois. O quão sagrado é ser absurdamente feliz mesmo sabendo a dor que vem depois. O quão sagrado é ver pureza em tudo o que você faz, ainda que você faça tudo sendo um grande safado.
O quão sagrado é abrir mão de evoluir só porque andar pra trás é poder cruzar com você de novo.
Não é amor não. É mais que isso, é mais que amor. Porque pra te amar mais, eu tenho que te amar menos. Porque pra morrer de amor por você, eu tive que não morrer. Porque pra ter você por perto um pouco, eu tive que não querer mais ter você por perto pra sempre.E eu soquei meu coração até ele diminuir. Só pra você nunca se assustar com o tamanho. E eu tive que me fantasiar de puta, só pra ter você aqui dentro sem medo. Medo de destruir mais uma vez esse amor tão santo, tão virgem. E eu vou continuar me fantasiando de não amor, só pra você poder me vestir e sair por aí com sua casca de não amor. E eu vou rir quando você me contar das suas meninas, e eu vou continuar dizendo: ' Bonito carro, boa balada, boa idéia, bonita cor, bonito sapato '. E eu vou continuar sendo só daqui pra fora. Porque no nosso contrato, tomamos cuidado em escrever com letras maiúsculas: NÃO EXISTE NINGUÉM AQUI DENTRO!
Mas quando, de vez em quando, o seu ninguém colocar ali, meio sem querer, a mão no meu joelho, só para me enganar que você é meu dono. Só para enganar o cara da mesa ao lado que você é meu dono.
Eu vou deixar. Vai que um dia você acredita. "
- Tati Bernardi
" Primeiro dia sem você. A casa vazia, mesmo com televisão, som e ventilador urrando no meu ouvido. Tento prestar atenção no comercial que passa, mas nada me faz desviar os pensamentos. Penso em ler um livro, pelo menos pra me distrair. Não passo da primeira folha. Acendo um cigarro e não sinto o mesmo prazer.
Aquela tonalidade avermelhada que se formava se foi, junto com sua presença.Tentei ser tão firme ao saber que iria partir, tentei impedir que meu corpo balançasse e despencasse em uma queda sem fim, sem nada em que em amparar. Mas ao último momento, gritei. Gritei alto pra você não ir: ' Fica comigo, não vai embora, não! ' Mas no fundo, eu sabia que não iria poder impedir de seguir seu caminho.Os minutos no relógio parecem intermináveis. A cada um deles, o vazio aumenta. Olho novamente pra televisão e nada me atrai. Corro os canais em busca de algo que me prende e termino por olhar pela janela, desejando voar.
Voar ao seu encontro, participar da sua vida.Enxugo uma lágrima única que insistiu em rolar. Controlo-me pra não chorar, pra não ligar pela terceira vez no mesmo dia. Só queria ouvir sua voz.
Espero que esteja bem, espero que esteja feliz, mas com saudades, com vontade de mim. Concentro-me na lembrança do seu rosto, lembrando os contornos, os trejeitos.
Talvez, desse modo, você se lembre de mim.Presto atenção nos meus próprios sentimentos, sem julgar.
Só sinto. E sinto que sinto a sua falta. Sinto muito. E me sinto feliz por saber que esse sentimento terá, em breve, fim.
É tão reconfortante ter em mente a certeza da sua volta. Volta, vai, volta. A saudade continua apertando. E eu fico por aqui, somente a esperar (...)"
- Denise Krammer (: